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15/06/2021

O Impacto do sono na Saúde Cerebral

Qual o impacto da insônia na nossa vida?


Já houve mais de um trilhão de amanheceres e entardeceres desde que a vida começou. Há cerca de 3,8 bilhões de anos o nosso "relógio interno" impede que tudo aconteça ao mesmo tempo e garante que os processos biológicos ocorram na ordem apropriada.

E para que as células funcionem adequadamente, elas também precisam dos materiais certos no lugar certo e na hora certa. Milhares de genes precisam ser ligados e desligados em ordem e em conjunto. Proteínas, enzimas e outros compostos devem ser absorvidos, decompostos, metabolizados e produzidos em uma janela de tempo precisa para permitir importantes processos como crescimento, reprodução, metabolismo e reparo celular.

Durante o sono, embora o gasto de energia e os processos digestivos diminuam, muitas atividades essenciais ocorrem, incluindo reparo celular, consolidação da memória e processamento de informações pelo cérebro. A interrupção desse padrão, como acontece com o jet-lag, o trabalho em turnos e a doença mental, quebra a sincronização interna da rede circadiana e a nossa capacidade de fazer a coisa certa na hora certa fica prejudicada.



DORMIR POUCO É TÃO RUIM QUANTO FUMAR - "Há certamente uma cultura de, bem, eu tive apenas 5 horas de sono na noite passada, olha como sou fantástico" - ironizou ao jornal inglês Telegraph o Neurocientista e pesquisador da área do sono Russel Foster - "Na verdade nós devemos condenar esse tipo de coisa - da mesma forma que desaprovamos fumar. Acho que devemos começar a reprovar o hábito de não levar a sério o nosso sono".

 

92% das pessoas com depressão reclamam de dificuldades para dormir, o que talvez seja menos claro é que, para alguns, os distúrbios do sono podem começar antes da depressão, o que aumenta o risco de problemas de saúde mental no futuro.
Uma análise de 34 estudos que acompanharam no total de 150 mil pessoas por um período de três meses a 34 anos, mostrou que se as pessoas tivessem problemas de sono o risco relativo de sofrer depressão no decorrer da vida dobrava.

Claro, isso não significa que todo mundo com insônia vai desenvolver depressão mais adiante. A maioria das pessoas não vai. E é bom lembrar que a última coisa que as pessoas com insônia precisam, sem dúvida, é se preocupar com o que pode acontecer com elas no futuro, certo?

A complexa relação entre o sono e a saúde mental é reforçada ainda mais pela descoberta de que, se você trata a depressão, os problemas para dormir não desaparecem totalmente, isso sugere que a insônia persiste em alguns casos independente da depressão e precisa ser tratada separadamente. 

 

O sono e a vigília contam com sistemas própros, porém interconectados, assim, é encontrado um sistema de despertar e outro de adormecer que se alternam periodicamente, com mínima transição em condição normais.
Esse ciclo é regido pelo ritmo circadiano e tem uma relação com o fotoperiodismo decorrente da alternância dia-noite e está sob o controle do núcleo supraquiasmático do hipotálamo. Esse núcleo é o nosso "relógio mestre", é responsável pela organização ciclíca e temporal do organismo e do ciclo sono-vigília e ainda é influenciada pela tão famosa melatonina que inicia e mantém o sono.

Uma vantagem das intervenções precoces para impedir a falta de sono - tanto para o distúrbio em si, quanto para reduzir potencialmente problemas de saúde mental mais amplos - é que há menos estigma em torno da insônia, então pode ser mais fácil convencer as pessoas a procurarem tratamento.

A pergunta de um milhão de dólares é se as terapias para o sono poderiam até mesmo prevenir problemas de saúde mental no futuro.
É claro que dormir melhor não vai resolver por si só uma possível crise de saúde mental, mas poderia fazer a diferença no longo prazo? A maioria dos pesquisadores acreditam nessa possibilidade.

 

FONTES:

Arrogance of ignoring need for sleep - BBC NEWS
Sleep and circadian rhytm disruption and recognition memory in schizophrenia - Methods Enzymol
Wy do we sleep? Russel Foster - TED
Imagem: freepik.com